quarta-feira, 7 de outubro de 2015

vamos ao que importa!!!

                            _______entremos na neblina do outono_______


"Para não morrer de espanto, para poder com isto, para não
ficar só e doido, é que inventei a insignificância, as palavras, a honra e o dever, a consciência e o inferno."
(Raúl Brandão)

"Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi."
Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

(pronto, agora vamos trabalhar, descansar, passear e daqui a alguns dias cá estaremos, de novo, a dar a nossa esmolinha para as presidenciais...ou não???)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

______Neste dia especial da música_____

"Este foi o primeiro pensamento claro e distinto, pela manhã.
eu, semelhante e dissemelhante de uma coisa mínima, não sou 
 o centro do Universo."


"eu quero saber mais do mundo para onde irei."

(Maria Gabriela Llansol, "Amigo e Amiga")

____eu que gosto de arte em geral, de literatura, de música, de cinema, de fotografia, respeito toda a gente , anestesiada pelo odor do outono e pelo ambiente musical que me envolve afirmo:
 - no dia 4 de Outubro do corrente ano vou votar num partido decente e de esquerda... fazendo votos para que os restantes partidos (aqueles que têm sido manifestamente indecentes, capitaneados por delinquentes e malfeitores) sigam direitinhos para o raio que os parta, salvos sejam.


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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Este é o tempo dos gestos...



OS DEBATES __________

Ora agora ganhas tu,
Ora agora ganho eu,
Eu cá não sou nada sem tu,
E tu não és nada sem eu.


Ora agora dizes tu,
Ora agora digo eu,
Vê lá bem o que dizes,
Não vá dizeres que fui eu.


(Não sei o que vos diga perante isto____ graça ou desencanto!!!... 
Tratam-nos como verdadeiros incapacitados)


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Relembrar_____Sophia de Mello Breyner Andresen, sempre!

Fez onze anos que morreu sophia, podia escolher um dos seus belíssimos poemas, sobre o mar ou sobre a pátria, mas hoje é de mulheres que se exige que se fale!



RETRATO DE MÓNICA
Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.
E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Parabéns a uma Escritora maior______Hélia Correia!!!

Hélia Correia - uma mulher completa, feita de palavras e de amor à liberdade e à língua portuguesa.
Admiro-a muito, admiro a forma acutilante e firme quando se insurge contra as injustiças ou os atentados à liberdade e ao respeito pela dignidade humana .
Que bem atribuído lhe foi o prémio Camões, que orgulho sinto por ela.

"A escritora Hélia Correia foi galardoada com o Prémio Camões 2015. Autora de obra vasta e polifacetada, entre a dramaturgia, romance, poesia e literatura para crianças, este Prémio veio realçar a excelsa qualidade da sua obra. Já em 2013 havia conquistado o Prémio Correntes d’Escrita 2013, com a sua obra de poesia A Terceira Miséria (2012), em 2015 o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2015, pela obra 20 Degraus e Outros Contos (2014)."


"É preciso que as pessoas saiam de casa, que se unam.
 O corpo faz falta"

Este é um texto pujante, arrepiante. É “um texto de amor pela Grécia e de aflição por nós todos”. É um texto sobre “um dos mais difíceis momentos da História, porque não há um inimigo visível e somos todos culpados”. É um texto na primeira pessoa, de Hélia Correia, mas escrito pela jornalista Christiana Martins em 2013 após uma conversa com a escritora que acaba de ser distinguida com o Prémio Camões. E este é um texto que não pode perder .
(Expresso, 17 de Junho de 2015)
 (Adão Cruz)

  A palavra à querida Hélia Correia :

"Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
Incendiámos tudo: Alexandria
E os sábios, as mulheres. Incendiámos
O grande coração. Temos aos ombros
O apetrecho dos destruidores,
Não a pólvora, não: essa arrogância
Pela qual o ocidente se perdeu."
(in A Terceira Miséria, Relógio d'Água)

terça-feira, 16 de junho de 2015

Sobre as redes sociais_________

Fragilidades...

 As redes sociais são a maior montra atual para os egos individuais. E obviamente que admito que faço parte - de alguma forma - desse desfile egotista que ao mesmo tempo se quer partilhar com os de quem nós gostamos. No meu caso, gosto de pensar que o meu grupo de  amigos são pessoas de bem, com quem desenvolvo ou já desenvolvi uma relação de alguma espécie, agora ou lá mais para trás na linha do tempo. Embora pessoalmente faça nesta rede social muito mais do que exibir fotos minhas que saíram bem (no meio de tantas que não saíram) - pois reflito, opino, resmungo ou aprecio de forma muito constante  E, já agora, há egos enormes, emproados, do género que nunca falham e tudo sabem, que são muito discretos nas redes sociais, com fotos discretíssimas ou inexistentes. Ou que nem têm conta nestas paradas sociais da atualidade. O caráter de alguém não pode ser julgado apenas por aquilo que posta ou não nos murais do Facebook. A postura pode ser criticável, há coisas de que gostamos de postar ou ver postadas e outras não, mas uma coisa é certa: entre as tontas exibições do ego e as malévolas intenções dos dissimulados, fico-me mesmo pelas primeiras.
A ouvir:


"Le Buffet", "Les chercheuses de poux" et "Ma bohême", 3 poèmes de Rimbaud sur des...
YOUTUBE.COM

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Dia Mundial da criança!!!

Dia lnternacional da criança???????

Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.
Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.
Sidónio Muralha, "As crianças sem ano internacional"

(É um livro de 1963, mas mudou tão pouco.....)

(Sebastião Salgado)
"Portugal é dos países da OCDE com maior número de crianças pobres. Estima-se que um quarto viva o flagelo da pobreza infantil e exclusão social, situação que se agrava nas famílias monoparentais.
As crianças são as grandes vítimas das políticas de austeridade do Governo PSD-CDS/PP que colocaram o país no topo das desigualdades sociais na União Europeia. As famílias a braços com o aumento colossal do desemprego e da precariedade laboral, com a redução dos salários e com os cortes cegos na protecção social, viram o sua qualidade de vida sofrer uma profunda degradação com consequências dramáticas nas crianças."
Fotografias dos anos 8o ...Pouco mais há a dizer!



(imagens de Alfredo Cunha)

No fim do verão as crianças voltam, 
correm no molhe, correm no vento.
Tive medo que não voltassem.
Porque as crianças às vezes não
regressam. Não se sabe porquê 
mas também elas
morrem.
Elas, frutos solares:
laranjas romãs
dióspiros. Sumarentas
no outono. A que vive dentro de mim
também voltou; continua a correr
nos meus dias. Sinto os seus olhos
rirem; seus olhos
pequenos brilhar como pregos
cromados. Sinto os seus dedos
cantar com a chuva.
A criança voltou. Corre no vento.
(Eugénio de Andrade )